Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Guilhotina

Que diz a massa, que diz?
Amassa! Errando em motes
por toda a praça

Que diz a massa, que diz?
A messe! Começa, amansa,
depois esquece

Que diz a massa, que diz?
A missa! Mas perde a graça,
Que desperdiça

Que diz a massa, que diz?
A mossa! Vassalos rasos
Saudando a coça

Que diz à massa, que diz?
Aguça! Caça brioches,
Se pão não fuças.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Uma parábola

O inferno é semelhante a um homem que nunca teve ovelhas para perder, mas sempre creu-se no direito a todas. Cercado por próspera vizinhança, resolveu que o vizinho da direita tinha mais do que precisava ou merecia, e subtraiu-lhe uma ovelha, cuja falta o rico proprietário não notou. Ele comeu carne de ovelha e gostou. No dia seguinte, seu vizinho da esquerda perdeu uma ovelha, também sem perceber a falta. A carne de ovelha estava saborosa, embora um pouco menos que no dia anterior.
O homem começou a roubar as ovelhas de cinco em cinco, depois de dez em dez, vinte em vinte, enriquecido pela ausência, indiferença ou covardia de seus vizinhos.
Porque já precisasse de mais espaço, moveu as cercas de lugar, e à esquerda e à direita suas terras iam crescendo, enquanto as de seus vizinhos diminuíam. Em pouco tempo tornou-se o maior fazendeiro da região. Invadiu as casas dos vizinhos e os matou ao fio da espada. Festejou daí pra frente todos os dias, porque não ficava bem para um homem de sua nobre estirpe não dar festas em comemoração às conquistas. Mas já a essa altura, não sentia o gosto do carneiro, e nem todo o vinho da propriedade lhe bastaria para esquecer que estava nu.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Não sei, não - de Diana Pomba

Teu bico
Teu penico
Teu piercing nanico
É por isso que eu fico

Feijón Blanco


Cada peixe com seu anzol de estimação, que a festa vai começar e quem tiver medo do escuro que não apareça por aqui, pois eu não enxugo lágrimas de ninguém, e não sou besta de assumir o papel de mediadora dessa confusão que sempre fazem aqui. Aliás, fazem porque eu ando viajando e não vejo torcicolo nem que a vaca tussa, e parará, pororô.
E se brinco com coisa séria é porque ninguém disse que isso é errado por aqui também, que seja errado em toda parte, tudo bem, mas eu não sou obrigada a adivinhar que aqui também é, e parará, pororô.
Um dia eu vi um babador tão bonito que tive vontade de comprar para sua mulher, só assim ela pára de ter inveja do meu. Portanto, nem que todos vejam o que acaba de nascer, nem mesmo assim ele nascerá mais depressa. E para quem tem o ouvido muito pouco desenvolvido, até o palavrão tem de ser por escrito.
E quem disse que isso funciona? Pouco me importa, já que um dia é um dia e um mês é um mês, já que se chover de baixo para cima eu tenho tampão no nariz e não me afogo, onde já se viu, pôr lenha na fogueira e depois esquecer o dia de pagar a conta da lenha. Se der certo vai ser bom para a economia, se não der, vamos deitar e dormir e sonhar que se é um frango d’água em dia de sol. É ou não é, sinhá?
E agora chega, que ninguém me paga para ensinar esse bando de burros.

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Diana Pomba ficou assim depois que o seu marido fugiu com uma vendedora de perfumes e a chamou de fedorenta.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Consultório

Empreste-me essa mulher para os afagos do azar noturno, quero invadi-la de maus tratos exemplares, chover brutalmente no seu molhado parcamente cantado, fazer brotar a música perversa dos seus muitos pesadelos. Deixe-me esconder na caverna dos faunos expulsos suas madeixas desgrenhadas pela miséria de haver se tornado, além de inglória e grosseira, minha. Sua batalha diária será acrescida dos muitos fardos e das muitas dívidas. Sua canseira e seu enfado serão tudo, menos saber. Empreste-me essa mulher tão deliciosamente sofredora, e eu prometo devolvê-la com muitas evoluções disformes, num esforço autorremunerado de fazer crescer sua angústia, doutora, de arqueóloga das psiques.

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Retórica

Na verdade, em que verdades contem ou mintam, era só um rato disfarçado de herói, perito em produzir grandes cicatrizes de pequenos ferimentos. Mas estavam todos nus de epopeias, e lhe dedicavam olhares cobiçosos, e perguntas irrespondíveis, e mesmo querelas menores.

Era toda a praça e toda a cidade um só perigo, o de mergulhar na saliva do famoso interlocutor cansado ter dito o que os mendigos sempre recolhem no ar junto aos demais, vociferando o lixo.

Sábado, Agosto 01, 2009

Juízo final

E havia a lava morta, isenta de fogo, roubada de todos os calores. E ela estava em volta de mim, e me roubava o ímpeto da letra, meus irmãos. E meu estilo era tido como inerme e mortos eram os meus caracteres no silêncio indolente do dia que só tinha por virtude vir após outro dia.
Mas eis que, a despeito de toda a mortalha de cinzas que cobria meu ânimo, divisei a cálida, depois tórrida força motriz de um verbo obsessivo, que me impeliu ao alto como só um gêiser, que digo, como só o autêntico vulcão ativo, no inalcançável patamar de sua irreconhecível decisão ígnea, é capaz de produzir, com orgulho da má ou boa palavra. E aqui estou, neste altar das ressurreições, grato à caneta pela tinta que derrama, grato ao vinho que neste copo açoita os modorrentos embaraços, grato a todo vento de doutrina que vire as placas de todas as estradas para o derradeiro e preliminar caminho, e que este se encha de corpos que marcham, de vozes que cantam querelas ou cópulas, de almas salvas que queiram viver como quem sabe que jamais faltarão gritos de dor.

Quinta-feira, Julho 16, 2009

Esses anos músicos

Um vento passou por aqui durante todo o dia de hoje. Não é um vento de mover folhas, no entanto. São esses anos músicos que passam assobiando a fanática solicitude do tempo em deitar sepultos os filhos da terra. Eles movem folhas de calendário, páginas de diários, endereços e certidões.

Eles encobrem o ventre com uma mortalha de vento frio toda vez que falta pouco, toda vez que já passou tempo demais.

E antes dos corpos, não perecem os sonhos, a ânsia do vir a ser um dia? E não se enruga a carne antes de deixar os ossos, não se turva o olhar às vésperas curtas ou longas do último fechar de olhos?